... mas poderia ser da araucária ao cerrado, do primeiro planalto ao planalto central, do chimarrão ao açaí. É onde a viagem começa. É quando os fins de semana não bastam, voam, escoam, e o alento está em planejar. Uma viagem, uma casa, um quadro na parede, um lustre trazido de outro continente, armários sem cozinha. E o viajar já é muito mais do que a viagem! É o fio que atravessa 1.440km, que só a gente vê - e onde eu amo estar enovelada.
Pra ele, um passeio, uma poeira perto do caminho que já percorreu no mundo e no trajeto para o trabalho, todos os dias, testando minha capacidade de apneia e minha paranoia de acompanhar, minuto a minuto, sua rota no Google Maps.
Pra mim, uma miríade de desafios, dos mais elementares (pedalar) aos mais marginais (secador de cabelos). O equilíbrio em uma viagem de bicicleta de quase 160km não está nas rodas. Mas entre os meus dois pequenos alforges, a cestinha frontal e todas as minhas superficialidades e idiossincrasias.
Ele me fez redescobrir o vento na cara, o cabelo embaraçado, as coxas enriquecidas e doloridas. Uma vez perguntei o que ele pensava quando pedalava. "Em nada." A resposta, pouco romântica, que se registre, ficou dias revirando na minha cabeça. Nada? Como é que se pensa em "nada"? Praticantes da meditação dedicam horas para alcançar o pensamento vazio, o "nada". Pois ele consegue no trajeto entre a 215 Norte e o Lago Paranoá, pedalando. Isso me fascinou - como se não bastasse todo o encantamento que me desperta, sempre. E, das pequenas incursões sobre as asas norte e sul de Brasília, passando por um ensaio de pequeno vôo em Málaga, estamos na cabeceira da pista para Montevidéu!
"O passado ficou para trás, resta apenas o leito de um longo rio que já secou por completo. Muita poeira, seixos e algumas pedras bem pesadas. O presente flui como os grãos de uma ampulheta, apressando-se pelo fino gargalo de vidro de uma rotina seca, como se a vida nos escapasse pouco a pouco em um redemoinho de areia. Hipnótico, efêmero. A mim só resta viver no futuro. Lindo, brilhante, distante, é a alegria que mora longe, um tempo que nunca chega e, quando chega, fica uns dois dias e vai-se embora. Por isso tantos planos, sonhos e projetos. É a forma que inventamos para trazer o futuro para o agora, colorindo alguns grão de areia, dando sentido ao tempo que flui sem cessar. Não é fácil viver com essas pesadas pedras se não sabemos para onde nem por quê carrega-las."
O projeto é bem mais curto dessa vez: dez dias no Uruguai para fazer os 150 km de costa que separam Montevideo de Punta del Este, a dois.
A ideia veio dela. Desde que lhe comprei a Helena, uma city bike tipo holandesa, buscamos desculpas para pedalar juntos sempre que possível. Durante nossas últimas férias, na Espanha, alugamos um par de bicicletas para conhecer Málaga. Primeira tarde pedalamos de El Palo, onde estávamos hospedados, até o centro da cidade, a Catedral, mais especificamente. Um passeio tranquilo beirando a praia. Foi tão gostoso que repetimos a dose no dia seguinte, mas dessa vez seguindo a beira mar no sentido oposto, até uma urbanização litorânea chamada La Marina. Até 1968, antes da democratização do lazer, imagino, havia uma linha de trem que ligava Málaga a Velez e hoje foi transformada em um passeio que une todas essas praias. Foram 40 km de bike por Málaga que tocaram o coração do meu amor e a fez voltar pensando em outro passeio como aquele.
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| Porto de Malaga |
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| Tunel de la Cala del Moral |
Não sei por conta de quê ela sugeriu o Uruguai. Perto? Plano? Seguro? Bonito? Bom clima? Sim, cumpre todos os requisitos. Lançou a ideia e eu comprei na hora. Não conheço. Nunca fui. Vai ser agora.
Me encarreguei da organização. nessa ordem:
- Rota
- Hospedagem
- Bicicletas
- Packing list
E como em meu retiro espiritual, o La Loire à Vélo, cada um desses pontos merecem um post a parte.
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Que sejam dias de vento de proa para refrescar e de popa para embalar.
ResponderExcluirE principalmente que sejam dias de segurança, de boas paisagens e bons vinhos até a hora de retornar!
Vcs vão conosco, no coração!
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