Dia 24, véspera de Natal e nós, de volta ao trabalho.
Os dois primeiros dias pedalando foram muito sofridos por conta do vento, neste terceiro dia o que nos preocupava era o sol e o calor. Não somos de acordar cedo, então também não podemos dizer que o dia começou quente, mas às 10:30 quando deixamos nossa cabana na colina para trás, o sol já estava torrando.
Passamos por um bairro chamado Playa Verde e decidimos que é lá onde precisamos viver o resto de nossas vidas. Dos balneários por onde passamos, este era o mais bonitinho e vivo. Restaurantinhos, mercadinhos e casas "de arquitecto", como dizem os castelhano-falantes sem cerca nem portões. Uma tetéia de bairro, banhada por uma praia tranquila de areias finas e pedras escuras.
Eram apenas 10km até Solis, onde esperávamos encontrar um lugar para tomar alguma algo geladinho e fugir do sol mais forte, mas se levamos duas horas para chegar lá é porque tudo era muito lindo e o calor muito intenso. Parávamos o tempo todo para beber um pouco de água e curtir uma sombrinha. A espessa camada de protetor solar pastoso que passamos para proteger-nos do sol pode nos ajudar contra os raios UV, mas contra o calor só atrapalha. Perto das 12:30 chegamos a Solis para encontrar um balneário desértico com apenas um restaurante aberto, mas que restaurante.
O Garní é pequeno e pilotado por um Staff reduzido. Serve comida "Armênia y del Medio Oriente". Em uma casa de pedra, com o pátio envidraçado, sentamos em uma mesa baixa com sofás de jardim e pedimos uma cerveja Armênia servida em canecas conjeladas. O "Plato del Día", aquele que não está no cardápio mas cuja descrição minuciosa feita pelo proprietário o transforma em algo impossível de não desejar, foi pedido. Nos deliciamos com um pernil de cordeiro cozido extremamente macio e bem temperado, acompanhado por um cuzcuz de trigo igualmente delicioso. Recomendado.
Duas horas depois, partíamos descansados, alimentados, refrescados e com nossas garrafinhas dágua cheias de água fresca e gelo para aguentar os 17 km que ainda nos separavam de nosso destino final daquele dia. Antes de sair de Solis, ainda na esperança de encontrar um barzinho a beira mar onde esperaríamos o sol baixar um pouquinho mais, paramos na Playa Desembocadura, lindo lugar onde o Arroyo Gran Solis encontra o mar, mas nada de boteco. Demos uma voltinha para apreciar o local e voltamos a pedalar relativamente até chegarmos na rodovia Inter Balnearios novamente. Aí o calor pegou.
Olhando o mapa descobrimos uma estradinha que saía a direita logo após a ponte sobre o Arroyo Gran Solís, fazendo um arco ao norte da rodovia e voltando à mesma justamente no cruzamento que nos levaría à entrada do Balneario Argentino, de onde seguiríamos novamente pelas estradinhas de saibro até Biarritz. A primeira vista, uma estradinha de asfalto em zona habitável, bua opção para sair do stress da rodovia, andar no acostamento não é prazeiroso, e fugir do sol escaldante para uma área com mais sombra e menos movimento. Mais ou menos. Alguns quilometros estrada a dentro, o asfalto vira saibro, mais adiante o saibro vira uma trilha de terra, pouco mais além a terra vira areia. Foi mais de uma hora de sofrimento num ermo de uns 5km, lugar lindo, mas inóspito para duas bicis carregadas e pneus médios. Valeu a vista e um belo tombo por causa da areia fina.
Terminada a linda e sofrível estradinha, cruzamos novamente a rodovia Inter-Balnearios e voltamos à maciez de uma estradinha de asfalto com pouquíssimo movimento de carros, praticamente até chegarmos em Biarritz, nosso balneário daquela noite. Não sem antes comprarmos a ceia de Natal: ravilois, molho branco em pó, uma lata de pot-pourri de legumes (para incrementar o molho branco desidratado) e duas garrafas de vinho local, pois ninguém é de ferro.
O fim de tarde na praia de Biarritz foi estonteante. Um céu sem nenhuma nuvem, absolutamente limpo, único lado bom do dia excessivamente ensolarado, e uma brisa deliciosa.
Estávamos muito preocupados com o dia seguinte. O quarto dia de pedal seia o dia mais longo da viagem, 45 km com alguns trechos de rodovia. Dois dias sofrendo no vento e um dia escaldando no sol, não sabíamos o que esperar do próximo, que teria uns 10 km a mais. Celebramos a noite de Natal com apreensão e fomos dormir cedinho para acordar cedo no dia seguinte. Assim teríamos mais tempo ao longo do dia para descansos e sombra.
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| Nossa ceia de Natal |










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