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sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

URUGUAI 2019 - De Punta del Esta a Sauce de Portezuelo


Da janela, o dia amanheceu luminoso. Algumas nuvens e nada parecia corroborar com a previsão de chuva e vento (um pequeno tufão, na verdade) no que foi nosso primeiro dia na estrada. 

Nick preparou o café com o que compramos no mercadinho local no dia anterior. 

(Parênteses aqui: um mini-mercado com uma infinidade de tipos e marcas de doce de leite e vinhos! Se estivéssemos de carro, porta-malas cheio já no primeiro dia. Pedalar com a limitação de dois alforges cada pode ser bastante educativo.)

Café solúvel com leite desidratado e seis ovos duros. Dois na bagagem. Confesso que estranhei um pouco levar ovos cozidos na cestinha para o lanche... mal sabia o banquete que isso pode ser depois de alguns pares de quilômetros pedalando no frio e na chuva.

Noemi e Isidoro, os amigos do jantar da noite anterior, haviam feito a gentileza de um passeio noturno pela península em Punta del Este, dentro do carro, abrigados, confortáveis. Noemi, a mais doce das pessoas destas plagas, falou sobre os lobos marinhos, abundantes no Porto, que ganhavam os restos dos peixes recém-pescados pelos trabalhadores locais. Fiquei curiosa.

Ao sair, pela manhã, não sei se sentia o frio que a tempestade marítima trouxe. Chovia fino, as pernas roxearam um pouco, mas a ansiedade anestesiava. Primeiro compromisso era o roteiro do turista encantado: nos fotografamos nos dedos enterrados na areia, cartão postal de Punta. De lá, pela ciclovia ou pelas largas calçadas, vento contra do mar. No meio do chuvisco, uma capelinha da Virgem da Candelária, patrona da região. Pelas plaquinhas afixadas nas pedras, intercessora de muitas graças e milagres. E essas bolinhas na areia, como se membranas duras de ovos ocos. (Alguém sabe explicar o que é?)


Passeamos pela península sob a chuva fraca e gelada e pegamos um único breve trecho de vento a favor, daqueles de soltar os pés e se deixar levar! E assim fomos até o Porto de Punta del Este. Um enorme lobo marinho aguardava pacientemente pelos restos dos peixes que o pescador descartava. Depois, uma fêmea aportou. Na água, uma família inteira dos bichos se acumulava. Antes de ir embora, uma passada no mercado para providenciar a janta: lagostins, vieiras, lulas, polvos, camarões. Tudo acabado de tirar do mar.
Pouquíssimo descanso. Saímos de Punta del Este para Punta Ballena beirando a rodovia. A ideia era chegar até a Casa Pueblo, a icônica construção de Páez Vilaró. A estrada até lá não foi nada fácil.

O primeiro trecho, contornando a orla, ventos fortes levantavam a areia (aliás, há muitas dunas no litoral uruguaio), que faziam uma esfoliação natural nas canelas e no rosto. Por muitas vezes tivemos que parar para limpar os olhos (tinha areia grudada nos cílios!). A preocupação era não deixar as correias das bicis serem muito prejudicadas pela areia.

E aqui temos que fazer uma observação: já dentro da cidade, agora na rambla e, mais tarde, na rodovia ficou evidente o respeito dos veículos automotores pelas bicicletas. Em um momento, todos os carros da rotatória pararam para que pudéssemos passar em segurança. Velocidade reduzida e distância segura. Impressionante!

Da rambla para a rodovia. Um calvário!
Na beira do asfalto, ventos de 60km/h empurravam as bicis para trás e, por vezes, tínhamos que segurar forte para não desequilibrar. Por minha pouca prática ou por conta da instabilidade da rota, atravessamos praticamente todo o trecho empurrando as bicicletas, com chuva na cara, sob a proteção de capas de chuva (e de la Virgencita, claro!).

Confesso que me senti a mais miserável das mortais. Tentava focar em uma música, relembrar trechos de livros, rememorar filmes, pra escapar daquela situação desesperadora. Meu cansaço não era só nas pernas. Era o contexto. Aquela rodovia, os carros barulhentos, a bagagem que pesava, molhada, os eucaliptos que assoviavam com o vento.


Avistamos uma rua de saibro à direita e pensamos que talvez fosse um bom lugar para fugimos do campo aberto do vento. Entramos. Pedalamos, espirrando as poças. Não tinha mais recurso: era preciso voltar pra rodovia. Quero deixar claro que em momento algum pensei em desistir. Só temia que a paciência do Nick se esgotasse comigo. Ele pedala quase todos os dias cerca de 40km. Sob sol ou chuva. 25km/h. E agora tava lá, empacado com a sedentária que ganhou uma bici e achou que poderia pedalar pelo mundo! Felizmente, ele tem um controle mental forte.

Um lago lindo, que eu havia percebido no ônibus na ida, estava próximo. Lógico, em um grande descampado. O vento sopra muito mais forte sem obstáculos. E, lógico, teríamos que atravessar uma ponte. Em um misto de incentivo e desolação, largamos as bicicletas na beira da estrada, descemos um pouco mais próximo da beira do lago, sacamos os ovos cozidos e os chocolates comprados no free shop na véspera e fizemos o pic-nic mais simples e acolhedor do mundo. 

Entramos em uma rua secundária pra fugir um pouco do vento. Cada ruazinha internas nesses balneários tem encanto. Casas lindas, não necessariamente grandes, mas cuidadas, com jardins e hortênsias. Não foi possível seguir por dentro e voltamos à via sacra. 


A Casa Pueblo fica incrustada no alto de um carro. Para chegar lá, a pé ou de bici, é preciso querer. Mesmo. Nós queríamos. Chegamos encharcados, gelados, e esfomeados. Encostamos as bicicletas em uma grade em frente e... cadê as chaves dos cadeados para prendê-las? Na Bandeirante, que descansava no berço esplêndido do estacionamento do aeroporto de Curitiba! Arrastamos correntes...


Foi engraçado entrar no nono andar para baixo onde ficava o restaurante da Casa Pueblo. Passava das 17h e dividimos um chivito. Uma olhadela do lado de fora e a certeza de que não seria fácil voltar pra estrada.

Mas fomos. Alguns quilômetros depois, entramos no balneário da casa do Carlos, na qual passaríamos a noite. 

Outro parênteses: as casas nos balneários da Costa uruguaia têm nomes, não números. É possível saber a rua, mas a localização exata só com orientações do proprietário. Pobres carteiros!

Chegamos, enfim. Uma fritada de frutos do mar, dois vinhos e o merecido descanso. No meio do jantar, essas duas figurinhas vieram pedir um cafuné e acabaram dividindo conosco os mariscos! 

31km.

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