Café solúvel e leite em pó, batidos até espumarem. E ovos cozidos. Assim começou o segundo dia da viagem e tudo indicava que assim começariam muitos dos demais dali pra fente. Café da manhã prático, gostoso e nutritivo. A estratégia que vinha surgindo naturalmente, em parte pelas convenções comerciais, em parte pelo tamanho de nossa fome, era comprar meia dúzia de ovos pouco antes de chegar ao nosso destino final, cozinhá-los os seis pela manhã e comer apenas três ou quatro, guardando os demais para lanchinhos e descansos.
Com toda a calma do mundo re-arranjamos as tralhas nos alforges na companhia de nossos companheirinhos da noite anterior.
Partimos de Sauce de Portezula não muito cedo, perto das 11 horas, um pouco desanimados pelo mal tempo e pelo vento que insistia em soprar. Nossos amiguinhos nos acompanharam até o final da quadra. Na esquina, o limite invisível dos bichinhos, ficaram ali nos observando partir até nos perder de vista. De partir o coração.
Primeiro parênteses do dia: há muitos cachorros nas ruas da costa uruguaia. Todos grandes, lindos e dóceis. Ainda bem que estamos em duas rodas, porque a vontade é levá-los todos na bagagem.
Adendo ao primeiro parênteses: não é porque o cachorro é dócil que ele não gosta de latir e correr atrás de bicicletas. Perdemos as contas de quantos nos perseguiram, mas fato é que nossos calcanhares saíram ilesos.
Saindo do balneário, um curto trecho de rodovia nos leva até a estradinha de acesso aos demais balneários ao redor de Piriápolis, a "metrópole" regional. Mais uma vez, estradas calmas, às vezes anti-pó, às vezes apenas saibro, mas sempre macias e seguras para pedalar. Os poucos veículos que por nós passavam o faziam sempre com velocidade e distância seguras. Por vezes, com um sinalzinho de buzina encorajador ou apenas de alerta.
Já com muito menos vento que no dia anterior, o solzinho uruguaio aparecia, ainda com bastante timidez, como que apenas lembrando-nos de sua existência. Um descanso numa lagoa florida, bucólica, daquelas pintadas em quadros na Casa da vó, um lanche em uma praia quase selvagem, tentativas frustradas de encontrar caminhos mais protegidos do vento. Assim passamos pelas desérticas Punta Negra e Punta Fria. O cenário começa a mudar chegando em Punta Colorado.
Casinhas sem cerca, algumas com telhados de palha, todo estilo de "countryside" inglês, "Terra dos Teletubies" segundo a Marcinha, "Shire", no meu ponto de vista. E, no topo da Punta, logo ao lado de um pequeno farol, o primeiro bar à beira-mar avistado desde a península de Punta de Leste. Um lugarzinho lindo, com nome e trilha sonora brasileiros: Tartaruga. Interessante o contraste: enquanto chegávamos aquecidos, encalorados, nos abrigando do vento no interior do local, outros frequentadores preferiam as mesas externas, enrolados em cachecóis.
Outra observação: os balneários uruguaios são bastante seguros, com pequenas exceções. É possível encostar as bicis carregadas e relaxar, sem neuras.
Na saída começamos a sentir um pouquinho o sol nas pernas e nas mãos, desprotegidas. Ignoramos. Seguimos. Dunas que derramavam areias no asfalto exigiam um pouco mais de atenção de quem vem com peso extra, no balneário de San Fancisco. E logo em seguida começava o calçadão que nos levaria ao Porto de Piriápolis e, logo em seguida, ao balneário.
No Porto paramos mais uma vez com a visão de um Lobo do mar tomando seu banho de sol com toda a tranquilidade do mundo. Depois do porto o calçadão de Piriapolis, que tenta replicar a orla de Biarritz. Pequenas subidas, suaves descidas, cruza uma ponte até encontrarmos uma ciclovia perfeita, larga, bem asfaltada. Quando a gente não pedala, não repara muito nisso. Mas, meu Deus do céu! Como faz diferença!
Mais uma obs: as casas nestes balneários parecem uma competição de projetos arquitetônicos funcionais e maravilhosos. E o que nos chamou muito a atenção foi que grande parte delas são "alugáveis". A impressão é que O Uruguai teve uma boa fase para construção e expansão e, de repente, a crise pegou. A estudar.
A ciclovia nos levou tranquilamente à Avenida 25 Metros (sim, era esse o nome da rua e de outras tantas em outros balneários). De novo, as casas sem numeração, mas com nomes. Aliás, uma ótima distração no percurso: ler as plaquinhas das casas. Neste dia, nossa casinha nos abrigaria por dois dias, primeiro descanso na viagem. Quando a gente se aproximava das casa alugadas, ficávamos antenados com mercadinhos e afins. O desse dia foi especial. Um casal muito simpático nos atendeu e nos dava recomendações como se fossemos velhos conhecidos. Compramos o básico para um jantarzinho a dois: uma lata de atum, um sachê de maionese, dois pãezinhos folheados que os locais chamam de galletas e duas garrafas de vinho branco. Voltamos lá outras muitas outras vezes. Sempre recebidos com sorrisos simpáticos e conversa fiada do casal.
A casinha era interessante. A umas quatro quadras do mar, a caminho do Cerro de Los Burros, uma vista espetacular. Augusto, esposa e filha nos aguardavam.
Outro: ou demos muita sorte ou os uruguaios são muitíssimo gentis, como amigos.
Noite de massa e frutos do mar: pão e atum. E vinho. Muito vinho. Afinal, era a primeira janela de dolce far niente da viagem.
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| Anoitecer na Cabana do Augusto |












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