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sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

URUGUAI 2019 - De Piriapolis a Cuchilla Alta



Dia 24, véspera de Natal e nós, de volta ao trabalho.

Os dois primeiros dias pedalando foram muito sofridos por conta do vento, neste terceiro dia o que nos preocupava era o sol e o calor. Não somos de acordar cedo, então também não podemos dizer que o dia começou quente, mas às 10:30 quando deixamos nossa cabana na colina para trás, o sol já estava torrando.

Passamos por um bairro chamado Playa Verde e decidimos que é lá onde precisamos viver o resto de nossas vidas. Dos balneários por onde passamos, este era o mais bonitinho e vivo. Restaurantinhos, mercadinhos e casas "de arquitecto", como dizem os castelhano-falantes sem cerca nem portões. Uma tetéia de bairro, banhada por uma praia tranquila de areias finas e pedras escuras.


Eram apenas 10km até Solis, onde esperávamos encontrar um lugar para tomar alguma algo geladinho e fugir do sol mais forte, mas se levamos duas horas para chegar lá é porque tudo era muito lindo e o calor muito intenso. Parávamos o tempo todo para beber um pouco de água e curtir uma sombrinha. A espessa camada de protetor solar pastoso que passamos para proteger-nos do sol pode nos ajudar contra os raios UV, mas contra o calor só atrapalha. Perto das 12:30 chegamos a Solis para encontrar um balneário desértico com apenas um restaurante aberto, mas que restaurante.


O Garní é pequeno e pilotado por um Staff reduzido. Serve comida "Armênia y del Medio Oriente". Em uma casa de pedra, com o pátio envidraçado, sentamos em uma mesa baixa com sofás de jardim e pedimos uma cerveja Armênia servida em canecas conjeladas. O "Plato del Día", aquele que não está no cardápio mas cuja descrição minuciosa feita pelo proprietário o transforma em algo impossível de não desejar, foi pedido. Nos deliciamos com um pernil de cordeiro cozido extremamente macio e bem temperado, acompanhado por um cuzcuz de trigo igualmente delicioso. Recomendado.

Duas horas depois, partíamos descansados, alimentados, refrescados e com nossas garrafinhas dágua cheias de água fresca e gelo para aguentar os 17 km que ainda nos separavam de nosso destino final daquele dia. Antes de sair de Solis, ainda na esperança de encontrar um barzinho a beira mar onde esperaríamos o sol baixar um pouquinho mais, paramos na Playa Desembocadura, lindo lugar onde o Arroyo Gran Solis encontra o mar, mas nada de boteco. Demos uma voltinha para apreciar o local e voltamos a pedalar relativamente até chegarmos na rodovia Inter Balnearios novamente. Aí o calor pegou.



Olhando o mapa descobrimos uma estradinha que saía a direita logo após a ponte sobre o Arroyo Gran Solís, fazendo um arco ao norte da rodovia e voltando à mesma justamente no cruzamento que nos levaría à entrada do Balneario Argentino, de onde seguiríamos novamente pelas estradinhas de saibro até Biarritz. A primeira vista, uma estradinha de asfalto em zona habitável, bua opção para sair do stress da rodovia, andar no acostamento não é prazeiroso, e fugir do sol escaldante para uma área com mais sombra e menos movimento. Mais ou menos. Alguns quilometros estrada a dentro, o asfalto vira saibro, mais adiante o saibro vira uma trilha de terra, pouco mais além a terra vira areia. Foi mais de uma hora de sofrimento num ermo de uns 5km, lugar lindo, mas inóspito para duas bicis carregadas e pneus médios. Valeu a vista e um belo tombo por causa da areia fina.



Terminada a linda e sofrível estradinha, cruzamos novamente a rodovia Inter-Balnearios e voltamos à maciez de uma estradinha de asfalto com pouquíssimo movimento de carros, praticamente até chegarmos em Biarritz, nosso balneário daquela noite. Não sem antes comprarmos a ceia de Natal: ravilois, molho branco em pó, uma lata de pot-pourri de legumes (para incrementar o molho branco desidratado) e duas garrafas de vinho local, pois ninguém é de ferro.

O fim de tarde na praia de Biarritz foi estonteante. Um céu sem nenhuma nuvem, absolutamente limpo, único lado bom do dia excessivamente ensolarado, e uma brisa deliciosa.




Estávamos muito preocupados com o dia seguinte. O quarto dia de pedal seia o dia mais longo da viagem, 45 km com alguns trechos de rodovia. Dois dias sofrendo no vento e um dia escaldando no sol, não sabíamos o que esperar do próximo, que teria uns 10 km a mais. Celebramos a noite de Natal com apreensão e fomos dormir cedinho para acordar cedo no dia seguinte. Assim teríamos mais tempo ao longo do dia para descansos e sombra.

Nossa ceia de Natal

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

URUGUAI 2019 - Primeiro dia de boas

Por mais que a gente goste de pedalar, não pedalar também é muito bom. Melhor ainda depois de dois dias lutando contra um pequeno tufão, com a chuva molhando por cima e a areia picando por baixo. Melhor ainda acordando numa cabana no alto da colina com vista para o Mar del Plata desde a janela do quarto, sem nem ter que sair da cama. Melhor ainda com um dia de praia e agora com um céu limpo sobre nós.



Dia de coçar é também dia de curar as feridas. Coxas e bumbum doloridos, um pelo esforço fora do comum, outro pelo tempo sobre o selim. Testa, mãos e pernas esturricadas pelo mormaço dos dias anteríores, lembrando-nos de que as nuvens e o vento não protegem muito da radiação nociva do sol, apenas refrescam a ponto de e nos fazer esquecer a proteção. Por isso massagem com hidratânte a base de cânfora e muito, muito protetor solar antes de voltar para a bici e buscar o melhor lugar na praia para fazer o que tínhamos que fazer aquele dia: nada. Bem, nada não, tomar umas cervejinhas geladas à sombra, tomar um pouco de sol nas partes do corpo não expostas nos dias anteriores, e refrescar-nos na água pouco salgada daquele mar fluvial. Nada mais.




Descemos a colina em bici, paramos em nosso amigo Peco para compra uma cervejinha gelada e pedir as informações que nos levariam a encontrar o único quioske num raio de 20km onde se poderia comprar empanadas, cervejas e drinks sem tirar os pés da areia. Assim passou-se o dia. Na volta passamo outra vez no Peco para comprar uma jantinha: vinhos locais, atum, maionese e galletas, um pãozinho folheado que Peco assava ele mesmo todos os dias, e fez questão de nos mostrar como e onde, seu forninho elétrico ao lado da mercearia. Logo, de volta à cabana, ver o por do sol da avarandinha e lambusar-nos um ao outro com o refrescante hidratânte de cânfora.


Delícia de vida.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

URUGUAI 2019 - Da Sauce de Portezuelo a Playa Hermosa


Café solúvel e leite em pó, batidos até espumarem. E ovos cozidos. Assim começou o segundo dia da viagem e tudo indicava que assim começariam muitos dos demais dali pra fente. Café da manhã prático, gostoso e nutritivo. A estratégia que vinha surgindo naturalmente, em parte pelas convenções comerciais, em parte pelo tamanho de nossa fome, era comprar meia dúzia de ovos pouco antes de chegar ao nosso destino final, cozinhá-los os seis pela manhã e comer apenas três ou quatro, guardando os demais para lanchinhos e descansos.

Com toda a calma do mundo re-arranjamos as tralhas nos alforges na companhia de nossos companheirinhos da noite anterior.



Partimos de Sauce de Portezula não muito cedo,  perto das 11 horas, um pouco desanimados pelo mal tempo e pelo vento que insistia em soprar. Nossos amiguinhos nos acompanharam até o final da quadra. Na esquina, o limite invisível dos bichinhos, ficaram ali nos observando partir até nos perder de vista. De partir o coração.



Primeiro parênteses do dia: há muitos cachorros nas ruas da costa uruguaia. Todos grandes, lindos e dóceis. Ainda bem que estamos em duas rodas, porque a vontade é levá-los todos na bagagem.

Adendo ao primeiro parênteses: não é porque o cachorro é dócil que ele não gosta de latir e correr atrás de bicicletas. Perdemos as contas de quantos nos perseguiram, mas fato é que nossos calcanhares saíram ilesos.

Saindo do balneário, um curto trecho de rodovia nos leva até a estradinha de acesso aos demais balneários ao redor de Piriápolis, a "metrópole" regional. Mais uma vez, estradas calmas, às vezes anti-pó, às vezes apenas saibro, mas sempre macias e seguras para pedalar. Os poucos veículos que por nós passavam o faziam sempre com velocidade e distância seguras. Por vezes, com um sinalzinho de buzina encorajador ou apenas de alerta.

Já com muito menos vento que no dia anterior, o solzinho uruguaio  aparecia, ainda com bastante timidez, como que apenas lembrando-nos de sua existência. Um descanso numa lagoa florida, bucólica, daquelas pintadas em quadros na Casa da vó, um lanche em uma praia quase selvagem, tentativas frustradas de encontrar caminhos mais protegidos do vento. Assim passamos pelas desérticas Punta Negra e Punta Fria. O cenário começa a mudar chegando em Punta Colorado.










Casinhas sem cerca, algumas com telhados de palha, todo estilo de "countryside" inglês, "Terra dos Teletubies" segundo a Marcinha, "Shire", no meu ponto de vista. E, no topo da Punta, logo ao lado de um pequeno farol, o primeiro bar à beira-mar avistado desde a península de Punta de Leste. Um lugarzinho lindo, com nome e trilha sonora brasileiros: Tartaruga. Interessante o contraste: enquanto chegávamos aquecidos, encalorados, nos abrigando do vento no interior do local, outros frequentadores preferiam as mesas externas, enrolados em cachecóis.




Outra observação: os balneários uruguaios são bastante seguros, com pequenas exceções. É possível encostar as bicis carregadas e relaxar, sem neuras.

Na saída começamos a sentir um pouquinho o sol nas pernas e nas mãos, desprotegidas. Ignoramos. Seguimos. Dunas que derramavam areias no asfalto exigiam um pouco mais de atenção de quem vem com peso extra, no balneário de San Fancisco. E logo em seguida começava o calçadão que nos levaria ao Porto de Piriápolis e, logo em seguida, ao balneário.



No Porto paramos mais uma vez com a visão de um Lobo do mar tomando seu banho de sol com toda a tranquilidade do mundo. Depois do porto o calçadão de Piriapolis, que tenta replicar a orla de Biarritz. Pequenas subidas, suaves descidas, cruza uma ponte até encontrarmos uma ciclovia perfeita, larga, bem asfaltada. Quando a gente não pedala, não repara muito nisso. Mas, meu Deus do céu! Como faz diferença!





Mais uma obs: as casas nestes balneários parecem uma competição de projetos arquitetônicos funcionais e maravilhosos. E o que nos chamou muito a atenção foi que grande parte delas são "alugáveis". A impressão é que O Uruguai teve uma boa fase para construção e expansão e, de repente, a crise pegou. A estudar.

A ciclovia nos levou tranquilamente à Avenida 25 Metros (sim, era esse o nome da rua e de outras tantas em outros balneários). De novo, as casas sem numeração, mas com nomes. Aliás, uma ótima distração no percurso: ler as plaquinhas das casas. Neste dia, nossa casinha nos abrigaria por dois dias, primeiro descanso na viagem. Quando a gente se aproximava das casa alugadas,  ficávamos antenados com mercadinhos e afins. O desse dia foi especial. Um casal muito simpático nos atendeu e nos dava recomendações como se fossemos velhos conhecidos. Compramos o básico para um jantarzinho a dois: uma lata de atum, um sachê de maionese, dois pãezinhos folheados que os locais chamam de galletas e duas garrafas de vinho branco. Voltamos lá outras muitas outras vezes. Sempre recebidos com sorrisos simpáticos e conversa fiada do casal.

A casinha era interessante. A umas quatro quadras do mar, a caminho do Cerro de Los Burros, uma vista espetacular. Augusto, esposa e filha nos aguardavam.

Outro: ou demos muita sorte ou os uruguaios são muitíssimo gentis, como amigos.

Noite de massa e frutos do mar: pão e atum. E vinho. Muito vinho. Afinal, era a primeira janela de dolce far niente da viagem.


Anoitecer na Cabana do Augusto

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

URUGUAI 2019 - De Punta del Esta a Sauce de Portezuelo


Da janela, o dia amanheceu luminoso. Algumas nuvens e nada parecia corroborar com a previsão de chuva e vento (um pequeno tufão, na verdade) no que foi nosso primeiro dia na estrada. 

Nick preparou o café com o que compramos no mercadinho local no dia anterior. 

(Parênteses aqui: um mini-mercado com uma infinidade de tipos e marcas de doce de leite e vinhos! Se estivéssemos de carro, porta-malas cheio já no primeiro dia. Pedalar com a limitação de dois alforges cada pode ser bastante educativo.)

Café solúvel com leite desidratado e seis ovos duros. Dois na bagagem. Confesso que estranhei um pouco levar ovos cozidos na cestinha para o lanche... mal sabia o banquete que isso pode ser depois de alguns pares de quilômetros pedalando no frio e na chuva.

Noemi e Isidoro, os amigos do jantar da noite anterior, haviam feito a gentileza de um passeio noturno pela península em Punta del Este, dentro do carro, abrigados, confortáveis. Noemi, a mais doce das pessoas destas plagas, falou sobre os lobos marinhos, abundantes no Porto, que ganhavam os restos dos peixes recém-pescados pelos trabalhadores locais. Fiquei curiosa.

Ao sair, pela manhã, não sei se sentia o frio que a tempestade marítima trouxe. Chovia fino, as pernas roxearam um pouco, mas a ansiedade anestesiava. Primeiro compromisso era o roteiro do turista encantado: nos fotografamos nos dedos enterrados na areia, cartão postal de Punta. De lá, pela ciclovia ou pelas largas calçadas, vento contra do mar. No meio do chuvisco, uma capelinha da Virgem da Candelária, patrona da região. Pelas plaquinhas afixadas nas pedras, intercessora de muitas graças e milagres. E essas bolinhas na areia, como se membranas duras de ovos ocos. (Alguém sabe explicar o que é?)


Passeamos pela península sob a chuva fraca e gelada e pegamos um único breve trecho de vento a favor, daqueles de soltar os pés e se deixar levar! E assim fomos até o Porto de Punta del Este. Um enorme lobo marinho aguardava pacientemente pelos restos dos peixes que o pescador descartava. Depois, uma fêmea aportou. Na água, uma família inteira dos bichos se acumulava. Antes de ir embora, uma passada no mercado para providenciar a janta: lagostins, vieiras, lulas, polvos, camarões. Tudo acabado de tirar do mar.
Pouquíssimo descanso. Saímos de Punta del Este para Punta Ballena beirando a rodovia. A ideia era chegar até a Casa Pueblo, a icônica construção de Páez Vilaró. A estrada até lá não foi nada fácil.

O primeiro trecho, contornando a orla, ventos fortes levantavam a areia (aliás, há muitas dunas no litoral uruguaio), que faziam uma esfoliação natural nas canelas e no rosto. Por muitas vezes tivemos que parar para limpar os olhos (tinha areia grudada nos cílios!). A preocupação era não deixar as correias das bicis serem muito prejudicadas pela areia.

E aqui temos que fazer uma observação: já dentro da cidade, agora na rambla e, mais tarde, na rodovia ficou evidente o respeito dos veículos automotores pelas bicicletas. Em um momento, todos os carros da rotatória pararam para que pudéssemos passar em segurança. Velocidade reduzida e distância segura. Impressionante!

Da rambla para a rodovia. Um calvário!
Na beira do asfalto, ventos de 60km/h empurravam as bicis para trás e, por vezes, tínhamos que segurar forte para não desequilibrar. Por minha pouca prática ou por conta da instabilidade da rota, atravessamos praticamente todo o trecho empurrando as bicicletas, com chuva na cara, sob a proteção de capas de chuva (e de la Virgencita, claro!).

Confesso que me senti a mais miserável das mortais. Tentava focar em uma música, relembrar trechos de livros, rememorar filmes, pra escapar daquela situação desesperadora. Meu cansaço não era só nas pernas. Era o contexto. Aquela rodovia, os carros barulhentos, a bagagem que pesava, molhada, os eucaliptos que assoviavam com o vento.


Avistamos uma rua de saibro à direita e pensamos que talvez fosse um bom lugar para fugimos do campo aberto do vento. Entramos. Pedalamos, espirrando as poças. Não tinha mais recurso: era preciso voltar pra rodovia. Quero deixar claro que em momento algum pensei em desistir. Só temia que a paciência do Nick se esgotasse comigo. Ele pedala quase todos os dias cerca de 40km. Sob sol ou chuva. 25km/h. E agora tava lá, empacado com a sedentária que ganhou uma bici e achou que poderia pedalar pelo mundo! Felizmente, ele tem um controle mental forte.

Um lago lindo, que eu havia percebido no ônibus na ida, estava próximo. Lógico, em um grande descampado. O vento sopra muito mais forte sem obstáculos. E, lógico, teríamos que atravessar uma ponte. Em um misto de incentivo e desolação, largamos as bicicletas na beira da estrada, descemos um pouco mais próximo da beira do lago, sacamos os ovos cozidos e os chocolates comprados no free shop na véspera e fizemos o pic-nic mais simples e acolhedor do mundo. 

Entramos em uma rua secundária pra fugir um pouco do vento. Cada ruazinha internas nesses balneários tem encanto. Casas lindas, não necessariamente grandes, mas cuidadas, com jardins e hortênsias. Não foi possível seguir por dentro e voltamos à via sacra. 


A Casa Pueblo fica incrustada no alto de um carro. Para chegar lá, a pé ou de bici, é preciso querer. Mesmo. Nós queríamos. Chegamos encharcados, gelados, e esfomeados. Encostamos as bicicletas em uma grade em frente e... cadê as chaves dos cadeados para prendê-las? Na Bandeirante, que descansava no berço esplêndido do estacionamento do aeroporto de Curitiba! Arrastamos correntes...


Foi engraçado entrar no nono andar para baixo onde ficava o restaurante da Casa Pueblo. Passava das 17h e dividimos um chivito. Uma olhadela do lado de fora e a certeza de que não seria fácil voltar pra estrada.

Mas fomos. Alguns quilômetros depois, entramos no balneário da casa do Carlos, na qual passaríamos a noite. 

Outro parênteses: as casas nos balneários da Costa uruguaia têm nomes, não números. É possível saber a rua, mas a localização exata só com orientações do proprietário. Pobres carteiros!

Chegamos, enfim. Uma fritada de frutos do mar, dois vinhos e o merecido descanso. No meio do jantar, essas duas figurinhas vieram pedir um cafuné e acabaram dividindo conosco os mariscos! 

31km.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

URUGUAI 2019 - De Curitiba a Punta del Este


Helena e Zydeco desmontados e embalados. Os alforges foram mais que suficientes para as tralhas e dormi as 3 horas que me cabiam tranquilamente. 5h30 a Francisca aportou no aeroporto de Curitiba e iniciamos uma infrutífera discussão com a Azul Linhas Aéreas, que cobrou R$ 487 + a taxa de bagagem que já estava paga para despachar as duas bicicletas. Tá. Foi. 

Na conexão em Porto Alegre, correria pelo adiantado da hora. Primeiro raio-x, perguntam sobre líquidos na bagagem. Sim, temos. Pouco, em mini-frascos. Pedem pra tirar tudo e colocar em sacos plásticos transparentes. Ok, procedimento de segurança. E onde havia o luxo das sacolinhas? No check-in, em outro andar do aeroporto. Nick correu até lá e teve que comprar a extorsivos R$ 4 a unidade. Voltamos, vitoriosos, ao raio-x, abanando nossos saquinhos plásticos. Começamos a revirar as tralhas para separar os perigosos líquidos, no que ouvimos, incrédulos, que poderíamos realizar o procedimento APÓS o passar pelo aparelho! Segurança... nhuf!

Viagem tão breve que não dá pra entender por quê tão cara! Desembarcamos em Montevidéu. Passa, imigração, passa duty free, passam esteiras. Lá no fundo, Helena com a embalagem toda avariada estava jogada no chão ao lado da esteira. Não avistamos Zydeco de cara. O encontramos, também jogado no chão, na fila de informações. Recolhemos as bicis, fotografamos, postamos nas redes marcando a Azul. Nada. Nadica. 


Pegamos o primeiro ônibus para Punta del Este. Talvez por terem nomes de pessoas, as bicis pagaram passagem cheia. O ônibus era chamado de "primeira classe". Foi praticamente direto até o balneário de Solís, por onde passaremos somente depois de quatro dias de estrada e, à partir daí, parou de balneário em balneário... Chegamos no terminal rodoviário de Punta del Este perto das 15h30, debaixo de uma tempestade marítima daquelas que viram notícia!

Montamos as bicis sob a farta marquise do terminal, mas o vento forte varria tudo com jatos d'água. Um spray incessante. Sob olhares curiosos, Helena e Zydeco voltaram às suas formas e funções com apenas leves escoriações. O olho de gato traseiro da Helena e seu farolete também traseiro não sobreviveram aos maus-tratos da companhia aérea - que, repito, cobra um belo plus para transportar bicicletas encaixotadas. Atualização: ainda sem resposta com relação a isso.


E assim, vestidos de espermatozóides avatares, pedalamos por cerca de dez minutos sob uma chuvinha já bem enfraquecida, mas constante, para chegarmos no apartamento do Mauro, que acolheu nossas carcaças naquela noite. Fomos muito bem recebidos e as bicicletas foram muito bem-vindas dentro do apartamento no terceiro andar que, apesar ou por ser antigo, possui rampas para acesso de bicocletas, cadeiras de rodas e carrinhos de bebê. Além do elevador. Civilização. 

Terminamos o dia na companhia de amigos de amigos, daqueles que rapidamente já se tornam também bons amigos. Nos levaram em um restaurante chamado El Palenque para saborear os maravilhosos assados e vinhos regionais. Começamos com morcillas e mollejas, passamos por um cordeiro e terminamos uma panqueque de manzana única. Estonteante. 

Voltamos cedo e apagamos, mesmo com o primeiro dia pedalando e alimentando a ansiedade.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

URUGUAI 2019 - Planejamento - Hospedagem

Há quem prefira viajar livremente, sem programar muito em detalhe as rotas e as hospedagens, disfrutando naturalmente e sem pressa os prazeres inesperados de uma viagem. Mesmo nos pontos turísticos mais manjados, sempre podemos nos deparar com momentos inusitados de contemplação que podem fazer com que nos arrependamos de ter que seguir um roteiro apertado. Ficar um dia a mais ali, ver o anoitecer daqui, pode fazer toda a diferença nas memórias de um passeio desses.

O problema é que não saber onde vamos passar a noite é uma liberdade que pode custar muito caro, ainda mais em alta temporada. É improvável que você tenha que dormir na rua com tantas ferramentas de busca de hospedagem on-line que a tecnologia nos oferece, mas pode que as únicas vagas disponíveis na última hora sejam caras de mais ou pior, muito mal localizadas.

Resolvemos, um pouco que arbitrariamente, picar os 10 dias de passeio em 6 dias pedalando, dois dias de interlúdios a cada dois dias de pedalada, e dois dias para conhecer Montevidéu, nos permitindo também, meio dia em cada extremidade para os deslocamentos iniciais e finais. Quebrando a costa nesses seis trechos precisaríamos de pouso nas extremidades (Punta del Este e Monteviodéu) e em mais 5 pontos intemediários. Aqui a tecnologia nos deu mais uma mãozinha. A maioria dos sites de busca de hotel ou casas de aluguel permite visualizar em mapas a localização dos locais disponíveis. Dias de busca, escolhas difíceis e troca de mensagens com proprietários de imoveis, nos rendeu a seguinte divisão:


De ponto a ponto, pedalaremos uns 30 km por dia em média, com um máxmo de 43 km entre Cutilla Alto e Salinas e um mínimo de 21 km entre Salinas e Carrasco. Isso é bem tranquilo, ainda mais quando se tem o dia todo. De quebra ficaremos hospedados em apartamentos, casas, quartos e cabanas com camas de verdade para descansar o esqueleto. Nada de barraquinhas e colchonetes portáteis desta vez. Só "luxo" e por menos de 100 reais por pessoa por dia. É mais que uma diária em um camping, mas menos que uma diária em hotel, mas todos com o conforto de uma casa de temporada. Até piscininha vamos tem em um ou outro.

Nota técnica: Com o endereço de cada local de hospedagem em mãos pude, finalmente desenhar em detalhe o "trajeto mínimo" de cada dia. O trajeto mínimo não é necessariamente a rota que seguiremos pois não inclui pontos de interesse desconhecidos, paradas para bares e restaurantes, desvios para um banho de mar ou mudanças de idéia, mas nos indicará claramente a melhor rota planejada para encontrar as ruas mais calmas, ciclovias e pontes, evitando detours desnecessários ao deparar-mo-nos com rios, rodovias, terrenos privados e outros obstáculos intransponíveis. Devem haver muitas formas de fazer isso. Eu uso o "my maps" do google para desenhar a rota e exporto o arquivo em formato GPX para te-lo off-line em meu celular. Com um aplicativo de mapas e navegação chamado "Routes" tenho um GPS que vai me guiar pela rota planejada, e sempre que eu sair da rota, me guiará de volta para ela.

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

URUGUAI 2019 - Planejamento - Rotas e mapas

Para um ciclista amador, aquele que ama andar de bicicleta e anda de bicicleta apenas por andar, os 130 km de auto-estrada que ligam Montevidéu a Punta del Este seria sinônimo de uma manhã bem aproveitada. Para um amador de outros aspectos da vida, incluindo o andar de bicicleta, 130 km pode render muitos dias pedalando.

Nós gostamos de andar de bicicleta - um mais, outra menos - mas gostamos também de viajar por viajar. Aproveitar o tempo, curtir a noite e dormir a manhã. Pegar uma prainha, jantar com calma, beber uma garrafa de vinho (cada um) e por consequência dormir um pouco além da manhã de vez em quando. Em dez dias a costa marítimo-fluvial podería muito bem ser feita a pé, mas poderia também ser feita de carro. A bike é o compromisso ideal pois ao mesmo tempo que nos expõe à paisagem e à geografia local de forma muito mais direta e intensa que um automóvel, proporciona a velocidade,  conforto e capacidade de carga que o andar a pé não tem.

Para definir um cronograma a primeira pergunta é: Por onde queremos passar?

Os principais pontos de interesse desta rota estão realmente nas extremidades: Montevidéu e Punta del Este. Entre os dois temos cidadezinhas costeiras simpáticas e marcos geogáficos bonitos, todos costeiros. A rota mais rápida entre Montevidéu e Punta é, efetivamente, a rodovia costeira chamada "Ruta Interbalneária" porém uma auto-estrada , além  de não ser o playground ideal para um passeio de bici, passa batida pelos pequenos detalhes da costa. Para quem não tem pressa e tem amor à vida, o ideal é passear pelas estradas secundárias que beiram o mar. Puntas, práias parabólicas, riachos e pontes, logo transformam os 130 km em 180.



Usando ferramentas de mapas como o Google Maps, podemos ver que, salvo excessões, podemos ir margeando quase toda a costa por caminhos secundários e bairros residenciais. Haverão momentos em que teremos que entrar na Interbalneária, porém serão trechos curtos e, aparentemente, com um acostamento seguro.

#ficaadica: pesquisando rotas e caminhos, descobri uma ferramenta nuito interessante que te dá, rapidamente, uma ótima noção do tipo de caminhos e estradas que você vai ter que enfrentar numa viajem dessas. Chama-se GPX Hyperlapse (www.gpxhyperlapse.com). Usando os MyMaps do google você traça a rota a ser avaliada e exporta o arquivo em formato GPX, que por suia vez pode ser carregado no site em questão. O que ele faz é descarregar todas as imagens do Google Street View e as sequencia em um filminho que você pode assistir ou vizualisar quadro a quadro. Dessa forma você pode, muito rapidamente, ter uma boa ideia com relação ao tipo de tráfego e superfície você vai ter que enfrentar, bem como a infra-estrutura (acostamentos, ciclovias) e a paisagem que vai encontrar pelo caminho. 
Outra questão importante aqui é se faríamos a rota de Leste a Oeste (Punta a Montevidéu) ou ao contrário. Sendo o trajeto excencialmente plano o que mais importa aqui é o vento. Uma rápida busca na internet nos trás a "animadora" notícia:

"A velocidade horária média do vento em Montevidéu passa por variações sazonais pequenas ao longo do ano. A época de mais ventos no ano dura 5,9 meses, de 28 de agosto a 25 de fevereiro, com velocidades médias do vento acima de 19,1 quilômetros por hora. O dia de ventos mais fortes no ano é 12 de novembro, com 20,3 quilômetros por hora de velocidade média horária do vento. A direção média horária predominante do vento em Montevidéu varia durante o ano. De 1 de setembro a 17 de abril, o vento mais frequente vem do leste durante , com porcentagem máxima de 42% em 1 de janeiro."
Ou seja, ventos fortes que podem vir de qualquer lugar. Respeitando então a estatística, vamos pedalar de Leste a Oeste, tentando manter o vento em nossas costas por 42% do tempo.
#Nota técnica: Uma bicicleta em boas condições e com os pneus corretamente calibrados oferece baixíssima resistência ao movimento portanto, no plano, o que determina sua velocidade é a resistência aerodinâmica e a força aplicada aos pedais. Por esta razão, a intensidade e direção do vento são determinantes no conforto e no tempo de viagem. Um calculo errado e simplificado nos demonstra que pedalar a 10 km/h em um dia sem vento  é quatro vezes mais fácil que pedalar a 10 km/h com um vento contra de 10 km/h. Se o vento for a favor, vale o inverso.
O plano então vai ser pedalar de Punta del Este para o Oeste, até Montevidéu. Voamos para a capital, pegamos um ônibus até Punta e voltamos pedalando pela costa, parando de praia em praia, 42% do tempo com o vento soprando em nossas costas, o resto do tempo, quem sabe.